Fim do ano, hora de balanços. O aplicativo de 2018, na opinião deste colunista, atende pelo nome Tik Tok e foi desenvolvido pela startup chinesa Bytedance. Chamar a Bytedance de startup, aliás, é um eufemismo. A empresa chegou a ser avaliada em US$ 75 bilhões (R$ 290 bilhões).

Para quem nunca usou, há duas formas de descrever o serviço. O jeito simplista seria dizer que o Tik Tok é uma espécie de Instagram em que, em vez de fotos, os usuários postam vídeos curtos de até 15 segundos. Em outras palavras, seria uma espécie de mural de Stories.

Só que dizer isso é menosprezar o que o aplicativo realmente faz. O Tik Tok é uma usina de inteligência artificial, capaz de entender profundamente as preferências de quem usa o app.

O aplicativo não “usa” inteligência artificial. Ao contrário, a inteligência artificial é o seu principal produto. Todas as suas funcionalidades são construídas em torno dela. Essa é uma mudança de paradigma fundamental.

Quem usa o Tik Tok compartilha vídeos curtos querendo impacto. Um dos principais gêneros, por exemplo, são pessoas dublando trechos de músicas conhecidas de forma debochada (o nome anterior do app era Musical.ly). A plataforma é especialmente popular entre adolescentes e está conquistando o mercado dos EUA e também do Brasil. A empresa já tem escritórios no Rio e em São Paulo.

24 April 2018,’Germany, Berlin:’The video app Musical.ly is installed on a smartphone. Experts warn against abuse, since, occasionally, there are sexually explicit clips, frequently by young users. Photo by: Silas Stein/picture-alliance/dpa/AP Images

Quem abre o app é exposto de cara a um feed com vídeos curtos customizado para o seu gosto. A inteligência artificial do app é capaz de medir cada microrreação ao conteúdo. Por exemplo, a forma como o usuário passa o vídeo para a frente, ou volta para ver um trecho novamente. Até a velocidade do dedo na tela é levada em consideração.

O resultado —como bem disse o investidor Andressen Horowitz— é “um canal de televisão sem controle remoto”.

Diferentemente do Instagram, do YouTube ou do Netlfix, o Tik Tok não trabalha com listas de recomendação do tipo “você gostou disso, então vai gostar também disso”. Ele tem tanta certeza do que você vai gostar que já exibe o conteúdo para você automaticamente.

Só nos iPhones foram feitos 104 milhões de downloads do aplicativo no primeiro semestre, fazendo dele o mais baixado do período. Só em outubro deste ano as instalações nos EUA foram maiores que as do Facebook, do Instagram, do Snapchat e do YouTube.

Há rumores de que o Facebook pretende assimilar o modelo do Tik Tok no Instagram, assim como fez com o Snapchat ao incorporar o Stories.

Só que o portfólio de produtos da Bytedance não para por aí. A empresa é também dona do Vigo, plataforma de vídeos live, em que pessoas transmitem ao vivo.

A diferença é que podem ser recompensadas pelos fãs em tempo real pela transmissão. Se o conteúdo está bom, os fãs compram presentes virtuais, como flores, joias, carrinhos e assim por diante, que valem dinheiro de verdade (de centavos a somas mais significativas).

Há uma multidão de pessoas que vive hoje da plataforma e dos seus lives através dela.

A empresa tem também o Toutiau, que usa o mesmo enfoque de inteligência artificial para organizar as notícias do dia. Ele cria um jornal ultrapersonalizado, que aprende com os hábitos de leitura e interesses do usuário.

Em suma, 2018 foi o ano em que a inovação chinesa se fez presente de vez no Ocidente.

Fonte: Folha de São Paulo

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