Para especialistas em privacidade, função de paquera da rede social, prevista para ser lançada nos próximos meses, pode ampliar problemas de fraudes, contas falsas e spam na plataforma

Em meio à maior crise de sua história, com dados de 87 milhões de usuários sendo utilizados ilicitamente por uma consultoria para influenciar eleições, o Facebook encontrou tempo para lançar um serviço de namoro. Anunciado na semana passada com o nome de Paquera, ele foi criado pela rede social para ajudar os 2,13 bilhões de usuários a encontrar o amor, dando à maior rede social do mundo uma vantagem intimista e única. Para especialistas em privacidade, porém, os solteiros que buscarem sua alma gêmea pelo Facebook pode não estar preparados para o que encontrarão: mais contas falsas, coletas de dados expandidas e uma nova onda de fraudes em namoro.

O serviço permitirá que pessoas com mais de 18 anos criem um perfil de namoro –  separado de seu perfil principal e invisível aos amigos – que mostra possíveis combinações, baseadas em interesses comuns, preferências de namoro, localização e amigos em comum, disseram funcionários da empresa.

Usando um botão – mas não deslizando o dedo, como no gesto popularizado pelo popular aplicativo de paquera Tinder –, as pessoas poderão dizer se estão “interessadas” ou se preferem “passar adiante” esses parceiros em potencial. Os pontos em comum serão mostrados com o primeiro nome da outra pessoa, idade, cidade atual e foto, embora os usuários também tenham a opção de compartilhar onde trabalham, estudam  e outras informações biográficas. O serviço começará a ser testado daqui a alguns meses, disse o Facebook.

Vigilantes de privacidade, especialistas em publicidade e concorrentes dizem temer que o serviço possa expor os usuários mais agudamente ao pior dos golpes da Web, o de estranhos mal-intencionados buscando fraudar informações, além de outros problemas mais do que comuns no Facebook.

“O Facebook já sabe muito sobre você que você diz, e recolhe uma grande quantidade de informações sobre você além disso… Agora, há toda essa outra quantidade de coisas realmente sensíveis”, disse Justin Brookman, diretor de política de privacidade e tecnologia no grupo de defesa Consumer Union. “Como o Facebook vai policiar isso? Vai colocar os recursos sob segurança? … Ou a sede deles por engajamento supera todas essas outras preocupações?”

Hoje, a indústria de apps e sites de encontros online gira em torno de US$ 3 bilhões. São empresas que reúnem dados de personalidade e de namoro sobre seus usuários para fins de correspondência e marketing. Mas, como o público do Facebook é maior e mais difundido, sua plataforma de segmentação de anúncios é mais sofisticada e seus perfis de usuários são baseados em anos de informações detalhadas, os especialistas temem que o novo serviço de encontros possa representar um enorme alvo e ampliar o potencial de abuso.

Muitos serviços de namoro, incluindo o Tinder, o Hinge, o Coffee Meets Bagel e o League, permitem ou exigem que as pessoas façam login com o Facebook e tenham condições de crescer com a mineração da rede social do Facebook. Mas eles traçam uma linha entre seus negócios – vendendo assinaturas ou itens pagos, como o Tinder faz com o “Super Like”.

Nova onda. Depois de convidar os desenvolvedores durante anos para criar novos produtos como aplicativos de namoro ou serviços de música no topo de sua plataforma social, o Facebook trocou a marcha e restringiu o acesso dos desenvolvedores aos dados de amigos em 2014 e 2015, uma medida que tornou difícil para muitos aplicativos de namoro adquirir novos clientes. Alguns dos aplicativos de namoro agora alegam que o Facebook está copiando seus aplicativos, englobando seus recursos em sua principal potência dominante no mercado.

Funcionários do Facebook disseram que a empresa queria reforçar sua plataforma como um destino de namoro amigável ao usuário, acrescentando que eles estão interessados ​​na ideia há anos e começaram a elaborar o serviço nos últimos seis meses. Muitas pessoas já estavam usando o Facebook para namorar, declarou a empresa, e eles queriam dar um apoio de forma segura a essas… iniciativas.

Os funcionários do Facebook disseram que a empresa está levando as questões de segurança e privacidade a sério e se movendo cautelosamente em direção ao ambiente de namoro. Mesmo quando estavam planejando que o principal executivo Mark Zuckerberg anunciasse o novo serviço de namoro no palco na terça-feira, funcionários disseram estar preocupados de como isso poderia ser um abuso.

Por exemplo, as pessoas só poderão enviar uma única mensagem como começo de conversa e não poderão mandar nada além de texto, como forma de evitar fotos e links potencialmente inapropriados.

Riscos. O Facebook há muito tempo combate os perfis falsos – divulgando fotos de mulheres bonitas e homens bonitões – que os golpistas usam para despertar relacionamentos com os usuários, roubar dinheiro e desaparecer. Alguns temem que o serviço de encontros só possa piorar o problema de “catfishing”.

Ainda assim, Kevin Lee, o arquiteto de segurança da startup de detecção de fraudes Sift Science e ex-gerente de spams do Facebook, disse que o serviço de encontros pode sujeitar os usuários a uma série de novos riscos, incluindo fraudes financeiras. A pesquisa da Sift, disse Lee, descobriu que cerca de 70% das vítimas dessas fraudes são mulheres – muitas vezes, mulheres mais velhas em países desenvolvidos, vistos por fraudadores como ricos e mais vulneráveis ​​devido a um divórcio, desejo de ter filhos ou qualquer outro acontecimento na vida.

Por Drew Harwell e Elizabeth Dwoskin – The Washington Post

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