Um software capaz de entender palavras e traduzi-las para a linguagem brasileira de sinais (libras) rendeu à startup Hand Talk, de Maceió, destaque global no palco do Google I/O. A empresa, junto com outras 19 organizações, foi uma das selecionadas por um desafio da gigante americana para iniciativas que gerem impacto social com uso de inteligência artificial. A vitória rendeu aos brasileiros uma bolsa de US$ 750 mil e uma semana de aceleração – a partir desta semana – na sede do Google, em Mountain View, Califórnia.

“Queremos nos aproximar do time de tradução do Google”, explica Thadeu Luz, cofundador da startup. Aberta em 2012, a empresa é dona de um aplicativo, gratuito, com o qual qualquer pessoa pode realizar traduções de português para libras. Pode parecer algo trivial, mas não é: cerca de 80% dos surdos são analfabetos ou têm baixo nível de compreensão escrita, diz a ONU. “Aprender uma língua sem a audição é difícil – ainda mais no Brasil, onde as escolas não têm intérpretes e há evasão escolar de surdos”, explica Luz. Já o IBGE estima que há cerca de 10 milhões de brasileiros com algum nível de deficiência auditiva.

A empresa também oferece a parceiros corporativos um tradutor de sites – clientes como Samsung, Magazine Luiza e MaxMilhas já contrataram a Hand Talk, em planos que variam de acordo com o tráfego, mas que começam em R$ 999 ao mês. “São esses recursos que financiam as 25 milhões de traduções que fazemos todos os meses”, afirma Carlos Wanderlan, diretor de tecnologia da startup alagoana. “Nossa missão é tanto fazer negócios quanto chamar atenção para essa questão social.”

“Eles chamaram a atenção pela relevância do projeto e pelo uso de inteligência artificial”, destaca Brigitte Gosseling, chefe de produtos de impacto no Google.org. Com a bolsa, a Hand Talk pretende abrir diversas frentes: quer desenvolver um sistema que permita traduções offline (hoje, todo o trabalho é feito online, na nuvem) e fazer uma versão de seu app para os EUA, com traduções entre inglês e a língua americana de sinais.

Há ainda outro desafio: criar um protótipo de conversão dos gestos usados em libras para o português. É algo difícil: em vez de lidar com texto, o sistema da empresa precisará entender movimentos. “A biblioteca de vídeos que precisamos construir e rotular para que a plataforma entenda tudo é enorme”, explica Luz. “Mas é algo necessário: hoje, fazemos o surdo entender o mundo. Queremos que ele também possa se comunicar. Precisa ser uma via de mão dupla.”

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